“Berlin Alexanderplatz” – Nota de Início

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Desta vez vou com a cara e a coragem mergulhar nas centenas de páginas de “Berlin Alexanderplatz”, o clássico de Alfred Döblin. Não li nada de específico sobre o livro, tudo o que me lembro são de alguns comentários esparsos ao longo dos anos.

Já fiz isso antes, e espero que esta atitude me ajude a devorar o livro com olhos curiosos, sem idéias pré-estabelecidas. Vamos ver no que dá, não é?

Sei que foi escrito no período entre guerras, que faz menções ao cristianismo, sei que o texto tem uma estrutura inusitada e sei que Fassbinder o adaptou. O badalado diretor fez uma minissérie sobre o livro para a televisão, que tem ao todo mais de 15h de duração. Todo mundo fala desta telesérie! É incrível! Em um dado momento cheguei a pensar que para a minha geração é mais importante assistí-la do ler o livro. Entretanto, não pretendo assistir tão cedo, vou esperar alguns meses após a leitura do livro.

Estas são as minhas expectativas. Volto a postar no blog para contar o desenrolar.

“Livro do Desassossego” – Nota de Conclusão

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Acabou. Ou não?  Explico: o mergulho proposto por Pessoa deixa marcas indeléveis na nossa forma de perceber o mundo. Uma chuva caindo ao final da tarde, não é apenas “uma chuva caindo no final da tarde”, ela passa a ser também todas as sensações que evoca. Tudo isto graças ao caráter extremamente sensível de Fernando Pessoa, o qual nos convida a uma espécie de reflexão amorosa sobre o ato de desfrutar a experiência da existência.

Há sempre um algo mais. E esta ânsia por este algo mais, por esta sensação, por esta emoção e por este sentido, não seria de certa forma o próprio motor propulsório de toda a criação do intelecto? De todo o seu expirar e respirar? Neste sentido, Pessoa quis insinuar de forma sutil, que todos os momentos são importantes, sem restrição, e que todos eles nos comunicam algo que pode à partir de uma elaboração mais cuidadosa nos fazer chegar as profundas e misteriosas verdades que cercam o existir

Isto me fez chegar a uma epifânia. A de que de certa forma este blog também é o meu “Livro do desassossego” pessoal. Minha busca por um sentido mais profundo através das sensações que todas estas obras me trazem. Foi mais do que uma leitura, foi uma revelação.

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Quando Fernando Pessoa fez a Coca-cola ser proibida em Portugal.

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Se não tivesse entrado para história como um dos maiores poetas em língua portuguesa, Fernando Pessoa ainda assim talvez tivesse assegurado seu lugar na posteridade como um dos piores casos de fracasso no meio publicitário mundial.

Estima-se que a parte do Livro do desassossego creditada a Bernardo Soares tenha sido escrita entre a segunda metade da década de 20 e durante os 30. Foi nesta época que o poeta entregou-se a um empreendimento ousado na época. Junto com seu amigo Manuel Martins da Hora fundou a primeira agência de publicidade de Portugal, a Empresa Nacional de Publicidade. Segundo consta, foi o próprio Pessoa quem deu entrada na papelada do negócio.

A publicidade ainda engatinhava naquele tempo em comparação a hoje em dia. Para abrir o negócio contavam com o capital social da empresa americana General Motors, mas a parceria acabou não vingando. Mesmo assim, tempos depois Manuel Martins conseguiu tornar-se o representante português da agência internacional de publicidade John Walter Thompson e manteve Pessoa como colaborador.

Em 1928, Carlos Eugênio de Almeida, chefe de Fernando, tornou-se o agente português da conta da Coca-Cola na JWT, e encarregou o poeta de criar a primeira propaganda da marca. Para tanto Pessoa criou o primeiro slogan da marca: “Primeiro estranha-se. Depois, entranha-se”.

Todavia o Diretor de Saúde de Lisboa, o médico e professor Dr. Ricardo Jorge não aprovou a ousadia do trocadilho do poeta, o qual considerou uma descrição perfeita do modo como o organismo se viciava em drogas.

Para ele o slogan pessoano expressava uma alusão à toxicidade do derivado de coca, ou seja, fazia apologia às drogas. Ele ficou tão alarmado que não apenas ordenou o confisco imediato do produto, como mandou atirar tudo ao mar, e proibiu totalmente a introdução do produto no mercado português.

A proibição vigorou por décadas e foi apenas em 1977, quase cinquenta anos depois que a Coca-Cola teve enfim o seu debut em terras lusas. Mas a essas alturas o malfadado slogan de Pessoa já havia sido totalmente esquecido.

O desassossego da profundidade em Fernando Pessoa.

O exercício de ler o “Livro do Desassossego” pede uma boa dose de concentração. Ao tratar-se, por assim dizer, de uma biografia sem fatos e, portanto, sem uma linha cronológica de acontecimentos.

Algumas vezes você vai encontrar a descrição, digamos, de uma tempestade batendo ameaçadoramente contra as janelas do escritório onde trabalha Bernardo Soares. No momento seguinte ele dirige-se a outro assunto, destila aforismos os mais complexos possíveis e depois volta com um comentário sobre as pessoas caminhando pela rua.

Quanto ao primeiro e ao terceiro tipos de trechos, tudo bem. O problema são os aforismos. Primeiro ele os deslinda com simplicidade, depois os apura com uma percepção surreal, e vai além, muito além do que qualquer um iria. Nesses momentos, não dá para simplesmente continuar a leitura.

Várias vezes deixei o livro de lado, para poder desfrutar, ou unicamente pensar no que havia acabado de ler. Difícil.

No dia-a-dia me deparava com alguma notícia sobre política, religião, filosofia ou artes que me remetia a Pessoa. E eu voltava para lá, morrendo de saudades de seus pensamentos, de onde ele me levou. Querendo conviver apenas com pessoas que fossem clones dele.

Tanto meme trash no Facebook, notícias horrorosas nos jornais, tantos desapontamentos com tudo, e eu tendo o privilégio de ler Fernando Pessoa.

Graças a ele pude pairar acima de tudo isso por alguns instantes. Encontrar paz, entendimento, sentido. Voltar a ter fé no ser humano. Vejo possibilidades, e por mais pessimista que seja seu ponto de vista, permito-me sonhar. Um mundo onde viveu uma mente que pode adicionar-me tanto, não pode estar totalmente perdido. Mário Quintana tinha razão quando disse: “Quem escreve um poema salva um afogado”.

Lembro-me de ler certo trecho e ter a necessidade de ir até a janela. Respirar. O peito doía em uma angústia boa. Até hoje dói um pouco. O título “Desassossego” não é gratuito. Ele consegue criar um desassossego em nós. E quem disse que isso é ruim?

“Livro do Desassossego” – Fernando Pessoa

Aqui você encontra todos os textos sobre a obra em questão:

Nota de Início – Impressões e considerações pré-leitura.

Nota de Conclusão – Impressões e considerações pós-leitura.

Relatório de Leitura – Um diário de leitura, com as dificuldades e particularidades da leitura de cada livro. O meu dia-a-dia com o livro e com a experiência de sua leitura.

Guia de Leitura – Dicas para facilitar a leitura, o entendimento da trama, e a melhor assimilação da obra.